Wednesday, 3 November 2010

QUEM FOI O PADRE ABEL VARZIM?


Em Ano Sacerdotal

Abel Varzim da Cunha e Silva nasceu em Cristelo, a 29 de Abril de 1902. Ordenado sacerdote em Braga, a 29 de Junho de 1925, com 23 anos apenas, aceitou ser enviado para o Alentejo. Começou aí a sua vida paroquial. Leccionou no Seminário de Serpa e fundou aí o primeiro grupo de Escuteiros daquela província.
Para melhor habilitação na defesa da justiça, frequentou entre 1930 e 1934, a Universidade de Lovaina, na Bélgica, conseguindo o grau de Doutor em Ciências Políticas e Sociais, com tese editada em França sobre a Liga dos Agricultores Belgas.

Regressado a Portugal, dedicou-se em pleno, dentro dos condicionalismos existentes, à defesa dos trabalhadores e de todos os desprotegidos.Dirigiu, de 1939 a 1948, o Secretariado Económico-Social da Acção Católica Portuguesa, onde, durante horas seguidas, atendia e procurava resolver casos de desemprego e de falta de realização humana.

Foi deputado à Assembleia Nacional, em representação da Igreja, na legislatura de 1938 a 1942. Não voltou ao lugar nas legislaturas seguintes, porque as suas principais intervenções beneficiaram da hostilidade governamental.
O seu amor à classe trabalhadora e o conhecimento que possuía dos seus problemas e aspirações fizeram dele fundador e inesquecível assistente da Liga Operária Católica, cuja actividade veio também a ser reprimida.

Abel Varzim sentiu-se obrigado, em 1948, a deixar o lugar de professor do Instituto de Serviço Social, que ocupava desde 1938, sob a ameaça de a escola cessar de receber o subsídio do Governo, caso ele não saísse.Nomeado pároco da Encarnação, no Chiado, em Lisboa, em 1951, também aí o seu trabalho de recuperação das prostitutas do Bairro Alto, suas paroquianas, teve má sina, não obstante a criação de um centro de reintegração na Amadora e no Porto e da fundação da Liga Nacional Contra a Prostituição.
Cansado e doente, foi aconselhado, em 1957, a retornar à sua terra natal, onde ainda se lançou na constituição e colocação em funcionamento, juntamente com alguns conterrâneos, da Sociedade Avícola do Minho, para desenvolvimento da região.Vigiado pela PIDE, durou seis anos e meio o seu cativeiro. Faleceu a 20 de Agosto de 1964, em actividade.

Autora: Fátima Vilaça

Dois traços sintomáticos para caracterizar o padre Abel Varzim:
Dava tudo o que tinha aos outros. Dava até a própria roupa pessoal, conforme afirmava há poucos anos alguém que foi responsável por serviços domésticos numa casa comunitária onde o padre Abel Varzim residiu, durante um período da sua vida. "Não há um dia de sossego, meu Deus! Sempre a miséria a rondar-me a porta... e eu sem lhes poder valer!". São palavras de Abel Varzim, recolhidas das páginas do seu "Diário".

Diz Abel Varzim: "Não gostei da procissão! (...) A Procissão dos Passos é de todos os dias mas não tem andores, nem música, nem anjinhos. Tem dores, angústias, desesperos, lágrimas, lamentos, e chagas. São os ódios de raças, as lutas fratricidas, os colonialismos, os campos de concentração, a opressão das consciências, as limitações da personalidade e da liberdade humanas, a fome, o desemprego, os bairros de lata, os acidentes de trabalho e de estrada, as prepotências e desmandos do capital, a exploração de menores, a escravatura da mulher, os compadrios, as injustiças, os egoísmos (...) Tudo isto flagela, dilacera, crucifica o Corpo de Cristo, como nunca talvez na História da Humanidade". In Abel Varzim, Procissão dos Passos - Editora Multinova- colecção Palavra e Testemunho.

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...
Padre José Luis, Meu Querido Amigo, mesmo contra a vontade de alguns dos seus leitores, volto ao seu blogue para enaltecer a Obra do Padre Abel Varzim e sugerir ao meu Amigo, que neste ano dedicado ao sacerdócio, escrevesse sobre estes ou esses padres que ofereceram as suas vidas na total disponibilidade aos mais pobres e desprovidos da sociedade. Houve muitos em Portugal. A Madeira fala-se do P. Teixeira da Fonte, que não conheci e do P.Dr.Maurício de Freitas a quem ajudei à Missa no Convento de Santa Clara, onde ele era capelão. Mas tinha eu sete ou oito anos de idade. Pouco ou nada posso dizer. Para além dos padres do Pombral e do Grupo dos 12, que fizeram uma carta "Mais Democracia , Melhor Democracia" atribuindo esse título a uma chamada de atenção ao Mundo do Papa Pio XII. É, apenas, uma sugestão.Agora houve padres na Madeira que não sendo políticos e eram até muito conservadores, tiveram uma vida de total abnegação e radicalização nas suas vidas. Num total desprezo pelo vil metal , Refiro-me ao Senhor Cónego Manuel Pombo. Que deveria estar nos altares. Ricos ou pobres; pecadores ou estando em graça a todos tirava o chapéu, quando na rua passava.n
E termino dizendo uma frase de um dos padres conciliares do Arcebispo Maximos V "o maiora mal dos nossos dias não é a pobreza dos desprovidos, mas a inconsciência dos garantidos"

2 de Fevereiro de 2010 04:33
tukakubana disse...
Oração: Padre Abel que estás nos céus, toca o coração dos teus irmãos sacerdotes. Ámen.

Quando em 1972 vivi no Funchal, na R.Mãe dos Homens (Rochinha) lembro-me muito bem do P. da paróquia de Fátima, então, ainda que pouco ou nada tenha falado com ele. Não me recordo agora o nome, mas recordo-me da "sola" dos sapatos dele, ao subir a Rochinha, com cartão a tapar o que faltava na sola. Porque, já nessa altura, era pelos pobres e ostracizados, o tal bispo D. Francisco, arranjou maneira de "desaparecer" com ele.Hoje estará no céu, talvez pedindo a Deus que deixe entrar o D. Francisco...
Como dizia o José Angêlo (olá, há anos que não nos vimos!)o P. Teixeira da Fonte era "um santinho" para o povo do Porto Moniz, que ainda hoje o chora e evoca. Graças a Deus, houve e há ainda santos sacerdotes. Não serão "infalíveis" mas também não ambicionam chegar ao trono de Roma e, sendo assim, são mais iguais e atentos ao seu povo.Bem hajam

2 de Fevereiro de 2010 07:28
tukakubana disse...
à força de recordar, lembrei-me. O santo dos nossos dias que referi, era o Padre Marques, se a memória me não falha por completo.

2 de Fevereiro de 2010 07:46
Autoer do blog disse...

Sim era o padre Marques, que morreu em Paris há cerca de dois anos com um cancro... Paz à sua alma e que fique o seu exemplo para os nossos dias...

2 de Fevereiro de 2010 07:56

Publicada por José Luís Rodrigues em 02:25


Monday, 1 November 2010

MISSA TRIDENTINA EM PORTUGAL


Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

Lista de missas tridentinas em Portugal

Muito obrigada ao queridíssimo amigo José Alberto pela informação deixada na caixa de comentários de um post, Deus o recompense! Então cá fica, agora em post, para lhe dar o devido destaque, a informação recebida sobre a Santa Missa Tridentina em Portugal, a quem possa interessar-se!
Em Portugal, as Missas no Rito Tridentino (com horário fixo), que eu tenho conhecimento, são estas: Franciscanos da Imaculada e FSSPX.

FRANCISCANOS DA IMACULADA

Missa na Capela das Irmãs Franciscanas da Imaculada (em Fátima).
Cidade do Imaculado Coração de Maria
Travessa à rua S. João Scalabrini
Moita Redonda
Apartado 86
2496 - 908 FÁTIMA
Telefone: 249531146

Missas:
Domingos e Festas de Guarda: 7:30 h (ou 18:30?). (Confirmar antes).
De Segunda a Sábado: 7:00 h . (Confirmar antes).
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FRATERNIDADE SACERDOTAL SÃO PIO X (Priorado)

ESTRADA DE CHELAS (liga com Av. Afonso III), Nº 29 - 31
1900-148 LISBOA
Telefones:
936550946 (Sr. Padre Anselmo).
218143591 (Priorado: Sr. Padre Anselmo/Sr. Domingos)

LISBOA - Priorado São Pio X:
Missa aos Domingos e Festas de Guarda: 11:00 h
Missa durante a semana: 19:00 h
(nas semanas em que estiver o Sacerdote).
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MONFORTE - Capela Nª Sª Rainha de Portugal:

Av. General Humberto Delgado, Nº 3
7450 Monforte
Missa no 2º Domingo: 18:30 h
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PEROLIVAS - Capela de São José:

Rua do Forno, Nº 25
7200 Reguengos de Monsaraz
Missa no 2º Sábado: 17:00 h
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FÁTIMA - Casa do Menino Jesus de Praga:

Rua da Imaculada Conceição, Nº 8
Bairro Moita Redonda
(a 50 metros da Capela de Santa Luzia)
Missa no 1º Sábado: 11:30 h
Missa no 1º Domingo: 18:00 h
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SÃO MARTINHO DE ARGONCILHE (perto do Porto):
(Santa Maria da Feira, Picoto)
Rua Alameda das Gorgas, Nº 380
Ribeira da Venda
4505 Argoncilhe
Missa no último Domingo do mês
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Nota Minha: o padre João Rodrigues também celebra a Santa Missa aos Domingos em Fátima, na capela dos padres marianos, penso eu de que! Então, se alguém souber ao certo a hora e o local, faça o favor de comentar neste post, a fim de que possa actualizar a mensagem com a informação correcta.

Muito obrigada! Espero que seja útil!

Salve Maria!
em 4/22/2010 12:11:00 PM
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comentários:

JSarto disse...
A Missa dominical nos Franciscanos da Imaculada, em Fátima, é às 18.30 horas. Às semanas as Missas são às 7.00 horas da manhã, portanto são para tradicionalistas madrugadores :-)

A Missa que o Padre João Rodrigues celebra aos Domingos, em Fátima, na Capela dos Padres Marianos é às 17.30 horas.

The Traditional Catholic Faith - Agora é às 18h 30m:


http://missatridentinaemportugal.blogspot.pt/
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Quinta-feira, 22 Abril, 2010

Renato disse...
Revono os agradecimentos deixados no outro post ao sr. José Alberto, e ora os estendo a você e ao JSarto.

Deus lhes pague!
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Quinta-feira, 22 Abril, 2010 Anónimo disse...
Aos interessados (e por Caridade), gostaria de deixar estas informações, abstendo-me de qualquer comentário acessório.
Deixo as conclusões para a livre consciência de cada um.

A Missa celebrada pelo Sr. Padre João Rodrigues é numa Capela preparada para a Missa Nova.
O Sr. Padre João Rodrigues também celebra a Missa Nova (ou pelo menos Concelebra).

José Alberto Costa - Sines.
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Sexta-feira, 23 Abril, 2010 JSarto disse...
Acredito que o Padre João Rodrigues tem indubitavelmente a vontade de fazer o que a Igreja sempre fez quando oficia a Missa, tanto a de sempre como a paulina, e que portanto as suas celebrações são plenamente válidas. E é publicamente sabido que tal sacerdote prefere a Missa de rito latino-gregoriano à Missa de rito paulino, e o mesmo assim o admite publicamente.
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Sexta-feira, 23 Abril, 2010 Magdalia disse...
Sobre o padre João Rodrigues, concordo com o JSarto, ele deve ser obrigado a celebrar as duas.

**

JSarto, logo que possa, envio-lhe um e-mail. Estou numa missão impossível! Looool

Dê-me uma espreitadela na casa alheia.

Abraço
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Sexta-feira, 23 Abril, 2010 Magdalia disse...
Apaguei os comentários por causa dos espiões.

Abraço

Os inimigos da Santa Igreja, dignai-vos humilhar, Senhor!

Sexta-feira, 23 Abril, 2010


FÁFÁ DE BELÉM SINGS AVE MARIA FOR JOHN PAUL II

FÁFÁ DE BELÉM SINGING AVE MARIA IN FÁTIMA'S CHAPPEL

AVE MARIA SUNG BY SISTER LUCIA AT THE CARMEL CONVENT

Sunday, 31 October 2010

KROHN BONDIT SUR JUAN CARLOS


Justice

Prison ferme contre Fernandez Krohn

Il avait bondi sur Juan Carlos

C'est un personnage peu banal qui se trouvait vendredi devant le tribunal correctionnel de Bruxelles et contre qui le procureur du Roi a requis de la prison ferme, sans précision de durée. Juan Maria Jésus Fernandez Krohn est un ancien prêtre intégriste espagnol de 52 ans.

En mai 1982, il tente d'assassiner le pape Jean-Paul II, à Fatima. Après avoir purgé une peine de trois ans et demi de prison dans un quartier de haute sécurité, il trouve refuge en Belgique. Licencié en droit, il obtient l'équivalence de son diplôme et s'inscrit au barreau néerlandophone de la capitale dont il est ensuite radié. Il avait omis de signaler son passé carcéral et, en prêtant serment, il avait entonné un chant franquiste !

Cette fois, Fernandez Krohn comparaît pour un incendie volontaire, sans victime, commis le 12 février 1996, à Etterbeek, contre le siège de Herri Batasuna, le bras politique des indépendantistes basques de l'ETA.

Devant la Cour, Krohn a reconnu être l'auteur des revendications de l'attentat, mais nie être passé à l'acte. Il dit l'avoir revendiqué pour protester contre l'asile offert la Belgique à des « terroristes ». Il affirme avoir procédé de la sorte dans d'autres cas.

A cette affaire, la justice bruxelloise a joint un autre dossier à charge de Fernandez Krohn. Il est, en effet, poursuivi également pour des coups et blessures à un agent de police qui l'avait maîtrisé le 16 mai 2000, place des Palais, à Bruxelles.

L'ex-prêtre avait enjambé une barricade et s'était dirigé comme une furie mais non armé vers le roi Albert II qui recevait officiellement son homologue espagnol Juan Carlos. Le prévenu dit avoir voulu parler à Juan Carlos et s'être trompé de roi.

La prévention de tentative de meurtre a été écartée, mais l'avocat de la Ville de Bruxelles, Me Leblicq, a fait état des 13 jours d'incapacité de travail du policier blessé au genou. Il réclame 273 euros pour la victime et 867 euros pour la Ville qui a pris en charge les frais médicaux.

Le jugement sera prononcé le 24 mai. (Avec Belga.)·

DELEPIERRE,FREDERIC

Samedi 27 avril 2002



KROHN: L'AGRESSEUR DU PAPE


Il y a dix-huit ans, Juan Maria Fernandez Krohn avait tenté d'assassiner Jean-Paul II à... Fatima Le «fou de Dieu» ne tuera plus la «momie blanche»

Radié du barreau flamand de Bruxelles et condamné pour faux, l'homme sera jugé pour un autre attentat, le 24 mai.

A l'arrivée du souverain pontife à Fatima, vendredi soir, les services de police portugais redoublaient de vigilance et de précautions. Lors d'une précédente visite de Jean-Paul II sur les lieux, en mai 1982, un prêtre intégriste espagnol, Juan Maria Jesus Fernandez Krohn avait attenté à sa vie à l'aide d'une baïonnette. Arrêté, il avait été condamné à six ans de prison.

Après avoir purgé trois ans et demi dans un quartier de haute sécurité, l'homme a ensuite tenté un exil en France et en Suisse d'où il a été refoulé. Il a trouvé refuge en Belgique où il a été ensuite condamné pour faux et usage de faux. Licencié en droit, il avait obtenu l'équivalence de son diplôme en Belgique. Lors de sa prestation de serment devant le barreau néerlandophone de la capitale, il avait omis de préciser son passé carcéral. A l'issue du procès, il avait entonné un chant franquiste à la surprise générale...

Sans nouvelle de Fernandez Krohn ces derniers jours, la police portugaise a fait appel à Interpol. A croire l'agence de presse lusitanienne, l'homme avait disparu de Bruxelles. Il aurait quitté son domicile sans laisser d'adresse. Pour réitérer son geste de 1982 sur les mêmes lieux?

Pas du tout. Juan Maria Fernandez Krohn était bel et bien présent à son domicile ixellois, vendredi après-midi. Il n'est absolument pas dans mes intentions de commettre la même erreur stratégique. Je l'ai fait à cause de mon éducation catholique sociologiquement monolithique. J'attends tout simplement la mort de la momie blanche ou alors son remplacement. Après près de 20 ans de persécution, j'ai eu le temps d'affiner mon raisonnement, réagit Juan Maria qui ne s'est pas pour autant rallié à la cause de Jean-Paul II. Mais le geste posé à Fatima m'a libéré. Ce pape se veut l'incarnation de Dieu sur Terre et veut tout conquérir. Il pratique le viol de conscience et joue sur la doctrine de la provocation. Même la majorité des catholiques ne l'accepte plus. Pour moi, Jean-Paul II est un conquérant spirituel.

Ancien prêtre qualifié d'intégriste, Juan Maria Fernandez ne se dit plus catholique. Sa quête spirituelle, il dit la retrouver dans sa mémoire historique. Ses velléités au sujet du pape, il ne les a pas rangées au vestiaire. Je prépare un livre dans lequel j'analyse tous les voyages du pape depuis son intronisation. Notamment celui de 1995 en Belgique. Ce fut un Waterloo puisqu'il n'y avait que 30.000 personnes. J'avais d'ailleurs annoncé que je serais son Wellington, à cette occasion, poursuit Fernandez. Durant la durée du voyage, j'ai été entouré de policiers qui suivaient tous mes faits et gestes.

Depuis lors, «le fou de Dieu», comme il s'était baptisé, a lancé deux publications dont l'une dénonce les problèmes de terrorisme au Pays basque espagnol, l'un de ses chevaux de bataille. A tel point que le 24 mai prochain, Juan Maria comparaîtra devant le tribunal correctionnel de Bruxelles pour un attentat commis contre un local du mouvement Herri Batasuna, l'aile politique de l'ETA, à Bruxelles. Je l'ai revendiqué au début mais ce n'est pas moi. La seule preuve que la justice a en main, c'est une bouteille de bière trouvée chez moi: elle est de la même marque que celle trouvée sur les lieux. Le seul témoin refuse toute confrontation.

FRÉDÉRIC DELEPIERRE

DELEPIERRE,FREDERIC; PIRAUX,SYLVAIN

Samedi 13 mai 2000


BRUMA AZUL DO DESEJADO - FREI HERMANO DA CÂMARA



Bruma Azul do Desejado - tema do album " Frei Hermano da Camara com o conjunto 1111"

EL ATAQUE DE JUAN KROHN AL PAPA


Las autoridades portuguesas quieren acelerar el juicio del sacerdote Juan Fernández Krohn

El agresor del Papa será juzgado en Vila Nova de Ourem

Juan Fernández Krohn, de 32 años de edad, autor de una agresión contra Juan Pablo II, el pasado día 12, en el santuario de Fátima, será juzgado por el tribunal ordinario de Vila Nova de Ourem, a 147 kilómetros al norte de Lisboa, en cuya jurisdicción , se sitúa el lugar del delito, revelaron ayer fuentes judiciales.

Las autoridades portuguesas están decididas a acelerar la instrucción del proceso, y lo más probable es que el mismo estará concluido antes del plazo máximo previsto de noventa días. Juan Fernández Krohn permanece a disposición judicial en una celda individual de la policía que depende del Ministerio de Justicia, en Lisboa. La única excepción que diferencia el trato que recibe con el de los demás reclusos es la de poder recibir visitas de sus familiares en un locutorio separado.

Una fuente de la policía ha informado que Fernández Krohn, que sigue vestido con una sotana, está perfectamente tranquilo y pasa la mayor parte del tiempo rezando. No ha pedido alimentación especial ni ha querido el aparato de radio al que tiene derecho.

Es evidente el deseo de la jerarquía católica de minimizar el acontecimiento, siguiendo la orientación marcada por el propio Juan Pablo II, que no ha hecho ninguna referencia pública a la agresión. Esta última palabra es la que utilizan todas las fuentes eclesiásticas interrogadas acerca de los hechos ocurridos en Fátima en la noche del 12 de mayo y que se niegan a hablar de atentado. La versión oficial sigue siendo que el agresor no llegó a aproximarse suficientemente al Papa para poder ejecutar sus eventuales intenciones homicidas, que no está claramente establecido que llegó a empuñar su arma y que el Papa no se enteró de que Fernández Krohn estaba armado hasta el día siguiente.

Sin embargo, una fotografía, ampliamente divulgada, muestra claramente un sacerdote presentando al Papa, sobre su mano abierta la bayoneta arrancada a Fernández, que aparece rodeado de policías a escasos metros del pontífice.

Cuando el Papa bajó del coche para subir las escaleras que llevan al altar, Fernández Krohn consiguió aproximarse de nuevo, al punto de rozar al Papa, que se volvió hacía él antes de seguir hacia los micrófonos, desde donde dirigió su bendición a los peregrinos. Entre tanto, se registra un movimiento extraordinario al pie de la escalera. Varios elementos de la policía portuguesa, vestidos de paisano, se han apercibido del gesto del agresor, que sacó de su maletín la bayoneta que llevaba escondida y lo desarmaron, postrándolo al suelo y torciéndole el brazo. Cuando el Papa baja algunos peldaños de la escalera en dirección al sacerdote, que aparece tendido de espaldas sobre el suelo y aparentemente desmayado, Fernández Krohn se incorpora violentamente, aunque maniatado por la policía, e invectiva al Papa en voz muy alta, gritando "Abajo el Vaticano II, abajo el Papa, fuera el comunismo".

NICOLE GUARDIOLA - , Lisboa - 18/05/1982


KROHN: O QUARTO SEGREDO DE FÁTIMA?

O quarto segredo de Fátima


Atentado em Fátima em 12 de maio de 1982 . João Paulo II chegava ao santuário, para agradecer a Nossa Senhora por ter lhe salvado a vida e protegido seu coração. De repente contra ele é desferida uma faca do tamanho de uma baioneta pelo padre dissidente espanhol Juan Fernandez Krohn. Este foi impedido imediatamente pelos seguranças. Na foto: Krohn começa a disferir o ataque.

O atual cardel metropolitano de Cracóvia e ex-secretário particular de sua Santidade o Papa João Paulo II, revela: Um ano após o atentado na praça de São Pedro, o Papa João Paulo II viajou a Fátima, em Portugal, para agradecer a Nossa Senhora pela graça concedida. E agora ele foi ferido pela segunda vez. Por que o Papa escondeu tal fato como sendo um segredo? No início de seu pontificado, em 1978, ou ainda em 1979, João Paulo II recebeu em audiência o bispo português Alberto Cosme do Amaral. Pediu para que o bispo mostrasse no mapa onde estava Fátima. O papa polaco - admirável - não se interessava anteriormente pelo culto a Nossa Senhora de Fátima.

Por que o convite para visitar Fátima, o qual é feito pelo bispo Alberto, é tratado com tanta trivialidade?
Para ir a esta pequena, desconhecida Fátima, ele não escolheu. Em janeiro de 1982, o bispo Alberto reiterou o convite. Então, na senha "Fátima", o papa está pronto para voltar atrás em seus planos nos protocolos diplomático colocando em suas mãos.

O Papa ainda convalecendo, chama seu amigo o prof. Stefan Swieżawski para falar sobre a coincidência de datas, entre a aparição de Fátima, em 13 de maio de 1917, e o atentado no Vaticano, em 13 de maio de 1981. João Paulo II e o prof. Swieżawski, mais precisamente, tomam juntos o café da manhã em Castel Gandolfo. Swieżawski, lembra: "Isto foi naquele dia, naquela hora, naquele minuto!" Milagre? Não! Apenas o papa estava convencido, que Nossa Senhora tinha lhe salvado a vida na Praça São Pedro, onde o turco Mehmet Ali Agca disparou com sua pistola contra ele.

O Papa promete ao bispo Alberto que irá a Portugal no aniversário do atentado, dali a quatro meses. João Paulo II começa então a aprender rapidamente o idioma português. E o faz durante cada café da manhã, quando recebe para conversar um bispo português. Em março chega a Portugal uma delegação do Vaticano liderada pelo núncio apostólico Sante Portalupim. Em Coimbra se encontram com a irmã Lúcia, carmelita.
Para ela e seus dois primos, em 1917, sobre um carvalho na Cova da Iria, nos arredores da cidade de Fátima, apareceu Nossa Senhora. A delegação volta a Roma com uma mensagem de irmã Lúcia para o Papa, que irá revelar o terceiro segredo. A grande hierárquia da Igreja reage dizendo que não aceita a proposta de irmã Lúcia. Apenas João Paulo II nunca quis ouvir qualquer crítica a Lúcia. Apesar da posição de seus cardeais, João Paulo II quer ouvir o que Maria teria dito. Este é o famoso terceiro segredo de Fátima: a bala que iria atingir a cabeça do Papa foi desviada naquele 13 de maio de 1981, na praça de São Pedro. O papa já estava restabelecido, forte, quando na grande praça, diante da basílica de Nossa Senhora das Rosas em Fátima, ouve do bispo Alberto: "Ninguém no mundo, ama-o mais do que aqui".

Entre milhares de pelegrinos, está o espanhol, de 32 anos, Juan Fernandez Krohn, padre da irmandade Pio X, ordem religiosa dissidente dirigida pelo bispo Lefebvre. Krohn não poderia ter ido a Fátima para rezar junto com João Paulo II. Não acreditando nos conselhos da igreja, no ecumenismo, na renovação, não faria sentido estar ali. Ele não acredita no Papa. Segundo um velho conhecido, Krohn "é um desqualificado intelectualmente". Enquanto isso, a procissão se aproxima da Capela da Anunciação junto ao altar principal da basílica. João Paulo II livre sobe as escadas. Krohn vestido com roupa preta sob o hábito também preto empurra a multidão e lança contra o papa uma faca do tamanho de uma baioneta. E grita: "Fora com o Papa!" Tenta ferir o papa no coração. O segurança papal Camillo Cibin e os agentes de segurança portugueses detêm o agressor. O Papa se volta para Krohn e apesar de tudo o abençoa. "Eu acuso você pela queda da igreja. Morte ao Concílio Vaticano II." , joga-lhe na cara Krohn. A maioria da pessoas na cerimônia não se dão conta do que está acontecendo. O Papa celebra, abençoa os fiés. ninguém pode supor, o quanto isto lhe custa. Dias depois no jantar do cardeal Agostino Casaroli, chefe da diplomacia do vaticano, transmite uma mensagem do Papa, aos membros da Secretaria de Estado, onde pergunta sobre o atentado, e estes rezaram durante toda a noite. "Posso disso entender, que afinal a Secretaria de Estado começou a rezar?". Foi a piada do papa.

Por mais de 26 anos, este fato foi escondido. Só agora com a publicação do livro, ano passado, e do filme recém lançado na Polônia, "Świadectwo", o cardeal Stanisław Dziwisz decidiu revelar mais este segredo, o do atentado de Fátima.

Para o produtor do filme "Świadectwo", Przemysław Häuser a revelação do cardeal Dziwisz foi um choque. "Pensei, que caíria da cadeira, quando ouvi. Não lembro, qual dia de gravação isto aconteceu, pois trabalhávamos de manhã à noite. Perguntamos sobre o segredo de Fátima, quando espontaneamente o cardeal começou a falar sobre este segundo segredo de Fátima", não aqueles guardados pela irmã Lúcia, mas deste "do atentado do espanhol Juan Fernadez Krohn".

Juan Fernandez Krohn foi condenado a seis anos e meio pelo atentado e mais seis meses por insultar o juiz. No processo afirmou que Wojtyła foi agente comunista, o qual sentou-se no centro do Vaticano. Cumpriu apenas três anos de pena. Livre em Portugal, viajou a Bélgica. joga fora o hábito e casa-se com uma jornalista portuguesa, com a qual se correspondia sobre sua situação quando estava na cadeia. Em 2000, foi detido em Bruxelas, por comprovado atentado contra os reis da Bélgica, Alberto e espanhol Juan Carlos I. Passa mais cinco anos na prisão. Krohn conduz um blog, no qual escreve sobre política espahola, sobre a guerra civil de 1936, literatura e religião.


O ex-padre dissidente hoje vive em Bruxelas. Juan Fernandez Krohn escreve em seu blog: "Se feri Joäo Paulo II em Fátima.. isto está claro para mim, ao contrário de Ali Agca ele não me perdoou nem mesmo antes do relaxamento de minha prisão, nem depois. Mas isto é mentira de que eu o feri."

Quando, numa quarta-feira, antes da "avant-première do filme "Świadectwo", no Vaticano para o papa Bento XVI, a agência internacional de notícias propaga sobre o segredo do atentado de Fátima, Krohn reage: "Em primeiro lugar, é mentira. Em segundo: isto é uma cegueira e uma escandaloza hipocrisia... Em terceiro: muito me estranha, porque só agora este bispo polaco revela isto, se escondeu durante 25 anos. A pergunta surge, por que revelar isto, quando a opinião pública de seu país está em choque com a revelação de que mombros da hierárquia da igreja na Polônia, serviram aos serviços de segurança comunistas". Eles temiam que aquela faca estivesse envenenada.


A Polícia retira o ensandecido padre Krohn do santuário. Poucos momentos antes ele havia atacado o papa João Paulo II que o abençoou. Krohn foi condenado a seis anos e meio de prisão, mas foi solto depois de três anos.

Postado por Jarosinski Brasil às 10:02




SUBCHEFE DA PSP RECORDA ATAQUE DE JUAN KROHN AO PAPA

06-04-2005 - 19:30h

«Achei que era um padre que queria tocar o Papa»

Homem da PSP que evitou que o Santo Padre fosse apunhalado em Fátima resistiu três vezes às tentativas do padre Krohn. À terceira foi de vez. Deitou-o ao chão e retirou-lhe o punhal

1982. O subchefe Ramalhete é um dos guarda-costas do primeiro-ministro Pinto Balsemão. A polícia portuguesa prepara nesse ano a primeira visita a Portugal do Papa João Paulo II. Ramalhete é chamado a integrar a operação de segurança, chefiando duas equipas de elementos da PSP que iam proteger o santo padre - uma em Fátima e outra em Coimbra.

Católico, com 34 anos e cheio de amor pela profissão, o subchefe não imaginava, quando foi chamado a integrar a missão, que acabaria por salvar a vida ao sumo pontífice. Momentos que nunca mais esquecerá. Pormenores que recordou em entrevista ao PortugalDiário.

«Era um punhal com 37 centímetros de comprimento e 25 centímetros de lâmina.» A arma com que tentaram atingir o Papa, um punhal considerado arma militar, ainda é guardado pela Polícia Judiciária. Mas a história do atentado que o Santo Padre sofreu em Fátima começa uns minutos antes da apreensão do sabre.

12 de Maio, 22.45h. «O Papa tinha saído da capela das Aparições e seguia no jipe em direcção ao altar mor». No corredor por onde o veículo passa, não é permitida a entrada de ninguém, excepto os homens da segurança e alguns religiosos. Juan Fernández Krohn, um padre espanhol, furou o esquema de segurança e entrou no corredor proibido.

«De repente o padre saltou a vedação mas nem considerámos muito grave porque era um padre. Achámos que era um padre emocionado que queria tocar no Papa», conta o (agora) subcomissário Ramalhete. Mas era grave. Era grave porque Krohn não era um padre qualquer. Fazia parte de um movimento integrista da Igreja Católica - a Fraternidade S. Pio X, cujo fundador, monsenhor Marcel Lefebvre, provocou depois um cisma, ao ordenar bispos contra a autoridade do Papa. Esta foi, aliás, a única ruptura oficial vivida por João Paulo II à frente dos destinos do Vaticano e da Igreja.

«Tentou saltar o cordão de segurança três vezes. Eu estava entre os que formavam o cordão de segurança mais próximo do Papa, a uns três metros dele. Ele tentou passar pelo meu lado e eu impedi-o. Mais à frente tentou forçar novamente o cordão. Eu não o deixei, dei-lhe uma cotovelada. Quando o Papa vai a chegar ao altar, [Krohn] lançou-se sobre o meu braço direito e gritou umas palavras agressivas sobre comunismo ou qualquer coisa como "Abaixo o Vaticano"». O jovem polícia provoca de imediato a queda do criminoso e só quando já está derrubado sobre as escadas é que é possível ver o punhal que segura na mão.

«O Papa ainda voltou atrás e deu-lhe a bênção, fez-lhe o sinal da cruz. E [Krohn] ainda voltou a dirigir palavras ofensivas ao Papa».

Apesar de ter conseguido, por três vezes seguidas, evitar que o atentado se concretizasse, o subcomissário sublinha que foi «um trabalho de equipa». Mais tarde prestou declarações na Polícia Judiciária. O padre Krohn, de 32 anos, «era alto, magro e fisicamente bem constituído. É julgado no tribunal de Ourém e condenado a sete anos de prisão. Cumpre apenas três anos e é libertado por bom comportamento.

As palavras minuciosas com que o oficial reformado da PSP descreve todo o caso revelam que esta será uma das operações mais marcantes da sua vida. Embora não seja a única. «Também não esqueço o dia em que levei Sá Carneiro ao aeroporto, momentos antes de ter morrido».

PORTUGAL DIÁRIO 06-04-2005 - 19:30h
Por: Lisete Reis

Saturday, 30 October 2010

O SONHO DE DON BOSCO: O INFERNO

Na noite de domingo, 3 de maio de 1869, festa do Patrocínio de São José, Dom Bosco retornou a narração do que tinha visto nos seus sonhos.

- Devo - principiou - contar-vos outro sonho, que se pode considerar conseqüência dos que vos narrei na 5ª e na 6ª feira à noite, os quais me deixaram tão cansado, que dificilmente me podia manter em pé. Chamai-lhes sonhos ou dai-lhes outro nome...; chamai-lhes como quiserdes.

- Por que não falas?

Voltei-me para o lugar de onde procedia a voz e vi junto ao meu leito um personagem distinto. Tendo compreendido o motivo da censura, perguntei-lhe:

- E que deverei dizer a nossos jovens?

- O que viste e te foi dito nos últimos sonhos, e também o que desejavas conhecer, e que te será revelado na próxima noite.

E desapareceu.

No dia seguinte inteiro, estive pensando na péssima noite que haveria de passar; e chegada a hora, não me decidia a ir dormir. Fiquei lendo, sentado à mesa, até meia noite. Enchia-me de terror a idéia de ter que presenciar ainda outros espetáculos terríveis. Fiz, afinal, violência sobre mim mesmo e fui deitar-me.

Para não dormir tão rapidamente, com temor de que a imaginação me levasse aos costumeiros sonhos, apoiei o travesseiro na parede, de modo a ficar quase sentado no leito. Mas, como estava moído de cansaço, sem que me desse conta o sono logo se apoderou de mim. E eis que de repente vejo no quarto, junto a minha cama, o homem da noite anterior, o qual me diz:

- Levanta-te e vem comigo!

- Rogo-te, por caridade - lhe respondi - deixa-me tranqüilo, pois estou cansado demais. Há vários dias sou atormentado pela dor de dentes. Deixa-me descansar. Tive sonhos espantosos; estou extenuado.

Dizia isso também porque a aparição desse homem é sempre sinal de grande agitação, cansaço e terror.

- Levanta-te, que não há tempo a perder! - me respondeu.

Então levantei-me e segui-o. No caminho, perguntei:

- Aonde me queres levar desta vez?

- Vem e verás.

Conduziu-me a um lugar onde se estendia uma imensa planície. Olhei à volta, meã de lado algum conseguia ver os confins dela, de tal forma era ela extensa. Era um verdadeiro deserto! Não aparecia ser vivo algum. Não se via nem uma planta nem um rio; a vegetação seca e amarelecida mostrava aspecto desolador. Não sabia onde me encontrava, nem o que iria fazer. Durante alguns instantes perdi de vista o guia. Receei me ter perdido. Não estavam comigo nem o Padre Rua, nem o Padre Francesia, nem ninguém mais. Eis que descubro de novo o amigo, que vinha a meu encontro. Respirei e lhe perguntei:

- Onde estou?

- Vem comigo e verás.

- Bem, irei contigo.

Caminhava ele na frente e eu o seguia em silêncio. Após uma longa e triste caminhada, pensando que precisaria atravessar toda a imensa planície, dizia para mim mesmo:

- Pobres de meus dentes! Pobre de mim, com as pernas inchadas!...

De repente, sem saber como, aparece diante de mim uma estrada. Rompi então o silêncio, perguntando ao meu guia:

- Aonde vamos agora?

- Por aqui - respondeu-me.

E nos encaminhamos por aquela estrada. Era bonita, larga, espaçosa e bem pavimentada. Via peccantium complanata lapidibus, et in fine illorum inferi, et tenebrae, et poenae (Eclesiástico, 21, 11) [O caminho dos pecadores é muito bem pavimentado, mas no final dele estão o inferno, as trevas e os castigos].

Nos dois lados do caminho, havia duas belíssimas sebes, verdes e cobertas de flores encantadoras. As rosas, especialmente, brotavam por todas as partes entres as folhas. À primeira vista esse caminho parecia plano e cômodo; e sem suspeitar de nada, me pus a caminhar por ele. Mas à medida que prosseguia, notei que ia imperceptivelmente declinado e, ainda que não parecesse muito rápida e descida, sem embargo disso eu corria a uma tal velocidade que parecia estar sendo levado pelo vento. Mais ainda, dei-me conta de que avançava quase sem mover os pés, tão rápida era nossa carreira. Refletindo que retornar depois por uma estrada tão longa me custaria grande esforço e fadiga, perguntei ao amigo:

- Como é que faremos para voltar depois ao Oratório?

- Não te preocupes - me respondeu - o Senhor é onipotente e quer que tu vás. Quem te conduz e te mostra como ir para a frente saberá também reconduzir-te de volta.

O caminho baixava sempre. Continuávamos nosso trajeto por entre flores e rosas, quando, pelo mesmo caminho, vi os meninos do Oratório, juntamente com muitíssimos outros companheiros que eu jamais vira antes, caminhando atrás de mim. E encontrei-me no meio deles. Enquanto os observava, de repente vejo que ora um, oura outro, caíam, e em seguida eram arrastados por uma força invisível rumo a uma horrível encosta que se entrevia à distância, a qual depois vi que ia dar numa fornalha. Perguntei a meu companheiro:

- Que é que faz cair esses jovens? Funes extenderunt in laqueum; iuxta iter scandalum posuerunt (Salmo 139) [Estenderam cordas à maneira de rede; junto do caminho puseram tropeços].

- Aproxima-te um pouco mais - respondeu.

Aproximei-me e vi que os meninos passavam entre muitos laços, alguns postos à altura do chão, outros à altura da cabeça; estes últimos não se viam. Dessa forma, muitos jovens, enquanto caminhavam sem dar-se conta do perigo, eram colhidos pelos laços; no momento de ser colhidos davam um salto, depois caíam no solo com as pernas para o ar e, levantando-se, se punham em desabalada corrida para o abismo. Um era agarrado pela cabeça, outro pelo pescoço, outro pelas mãos, por um braço, por uma perna, pela cintura, e imediatamente depois eram arrastados. Os laços estendidos pela terra, que mal se podiam ver, eram parecidos com estopa. Lembravam uns fios de aranha, e não pareciam muito nocivos. Sem embargo, vi que também os jovens colhidos por tais laços caíam quase todos por terra.

Eu estava espantado. E o guia me disse:

- Sabes o que é isso?

- Um pouco de estopa, não mais do que isso - respondi.

- Menos ainda do que isso; é quase nada - acrescentou. É apenas o respeito humano.

Vendo, entretanto, que muitos continuavam a se enredar nesses laços, perguntei:

- Mas como é que tantos ficam atados por meio desses fios? Quem é que tantos ficam atados por meio desses fios? Quem é que os arrasta desse modo?

- Aproxima-te mais, olha e verás.

Olhei um pouco e disse: - Não estou vendo nada.

- Olha um pouco melhor - repetiu.

Segurei então um dos laços, puxei-o para mim e notei que sua ponta não aparecia; puxei um pouco mais, mas não conseguia ver onde é que terminava aquele fio; pelo contrário, notei que também a mim ele me arrastava. Segui então o fio e cheguei à boca de uma espantosa caverna. Parei, porque não queria entrar naquela voragem; puxei para mim o fio e percebi que ele cedia um pouquinho. Mas era necessário fazer muita força. Depois de muito puxar, pouco a pouco foi saindo fora da caverna um feio e grande monstro que causava repugnância e segurava fortemente um cabo ao qual estavam atados todos os laços. Era ele que, mal caía alguém na rede, imediatamente o puxava para si.

- + inútil - pensei comigo - competir em força com este monstro medonho, porque não sou capaz de vence-lo; o melhor é combate-lo com o sinal da Santa Cruz e com jaculatórias.

Voltei, pois, para junto do meu guia, e ele me disse:

- Já sabes agora o que é?

- Sim! Já sei, é o demônio que estende esses laços para fazer meus jovens caírem no Inferno.

Observei então com atenção os muitos laços e vi que cada um deles lavava escrito seu próprio título: laço da soberba, da desobediência, da inveja, da impureza, do roubo, da gula, da preguiça, da ira etc.

Feito isso, coloquei-me um pouco atrás para observar quais daqueles laços colhiam maior número de jovens. Eram os da impureza, da desobediência e do orgulho. A este último estavam atados os outros dois. Além desses vi muitos outros laços que faziam grande estrago, mas não tanto como os primeiros. Sem parar de observar, vi que muitos jovens corriam mais precipitadamente que outros, e perguntei:

- Por que essa velocidade?

- Porque - foi-me respondido - são arrastados pelos laços do respeito humano.

Olhando ainda mais atentamente, vi que por entre os laços havia muitas facas espalhadas, ali colocadas por mão providencial, e serviam para corta-los e rompe-los. A faca maior era contra o laço do orgulho, e representava a meditação. Outra faca também grande, mas um pouco menor, significava a leitura espiritual bem feita. Havia também duas espadas. Uma delas indicava a devoção ao Santíssimo Sacramento, especialmente com a Comunhão freqüente; a outra, a devoção a Nossa Senhora. Havia também um martelo: a confissão. Havia outras facas, símbolo das várias devoções: a São José, a São Luís de Gonzaga etc. etc. Com estas armas não poucos rompiam os laços quando eram presos, ou se defendiam para não serem atados.

Vi, com efeito, jovens que passavam entre os laços sem nunca serem colhidos: ou passavam antes que o laço caísse, ou sabiam esquiva-lo e o laço escorregava sobre os ombros, sobre as costas, de um lado ou de outro, sem, contudo poder aprisiona-los.

Quando o guia se deu conta de que eu havia observado tudo, fez-me continuar o caminho bordado de rosas que, à medida que avançávamos, iam-se tornando mais raras, ao passo que começavam a se fazer notar enormes espinhos.

Chegamos a um ponto em que, por mais que olhasse, já não encontrava rosa alguma, e no final as sebes se haviam tornado só de espinhos, desfolhadas e secas pelo sol. Das moitas dispersas e ressecadas partiam galhos que serpenteavam pelo solo e impediam o caminho, semeando-o de tal maneira com espinhos que só com grande dificuldade se podia andar.

Havíamos chegado a uma baixada cujas ribanceiras ocultavam as demais regiões vizinhas; o caminho, sempre em declive, se tornava cada vez mais horrível, sem pavimentação, cheio de buracos, degraus, pedras e rochas arredondadas.

Havia perdido de vista a todos os meus jovens, muitíssimos dos quais haviam saído daquele caminho traiçoeiro para tomar outros rumos.

Continuei caminhando. Quanto mais avançava, mais áspera e rápida era a descida, de modo que às vezes resvalava e caía por terra, onde ficava um pouco para retomar o fôlego. De tempos em tempos o guia me sustentava e me ajudava a levantar. A cada passo as articulações se me dobravam e parecia que meu ossos se iam desconjuntar. Ofegante, eu dizia ao que me guiava:

- Meu amigo, minhas pernas já não podem me sustentar: estou tão esgotado que me é impossível prosseguir a caminhada.

O guia não respondeu, mas fazendo-me sinal para ter ânimo continuou o caminho; até que, vendo-me suado e morto de cansaço, conduziu-me a um patamarzinho que havia na entrada. Sentei-me, respirei profundamente e me pareceu descansar um pouco. Eu olhava entrementes o caminho percorrido: parecia quase vertical, semeado de espinhos e pedras ponteagudas. Olhava depois o caminho que ainda devia percorrer e fechava os olhos aturdido. Por fim, exclamei:

- Por caridade, voltemos par trás. Se continuamos adiante, como faremos para retornar ao Oratório? Serme-á impossível subir essa encosta.

O guia respondeu resolutamente:

- Agora que chegamos a este ponto, queres que te deixe só?

Diante da ameaça, exclamei em tom dolorido: - Sem ti, como poderei voltar para trás ou continuar a viagem.

- Pois bem, segue-me - acrescentou.

Levantei-me e continuamos descendo. O caminho se tornava cada vez mais espantoso e intransitável, de modo que mal podia manter-me em pé.

Eis que no fundo desse precipício, que terminava num vale sombrio, apareceu um imenso edifício que exibia, diante de nosso caminho, uma porta altíssima, fechada. Chegamos ao fundo do precipício. Um calor sufocante me oprimia e uma densa fumaça esverdeada se elevava em torno das muralhas, marcadas por chamas cor de sangue. Levantei os olhos para ver a altura dos muros; eram mais altos que uma montanha. Perguntei ao guia:

- Onde é que nos encontramos? Que é isso?

- Lê naquela porta - respondeu - pela inscrição saberás onde estamos.

Olhei e vi escrito na porta: Ubi non est redemptio [onde não há redenção]. Dei-me conta de que estávamos na porta do Inferno.

O guia me levou a fazer o contorno das muralhas daquela horrível cidade. De espaço a espaço, a distância regular, via-se uma porta de bronze como a primeira, também no ponto final de uma espantosa vertente, e todas tinham uma inscrição latina distinta das anteriores.

Discedite, maledicti, in ignem aeternum, qui paratus est diabolo et Angelis eius... Omnis arbor quae non facit fructum bonum excidetur et in ignem mittetur [Afastai-vos, malditos, ide para o fogo eterno que está preparado para o diabo e seus anjos... Toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo].

Apanhei um lápis para copiar as inscrições; mas o guia me disse:

Que estás fazendo?

- Tomo nota destas inscrições.

- Não é preciso; tu as tens todas na Escritura. Algumas delas até as mandaste colocar nas portas [de teu Oratório].

Diante de tal espetáculo, eu teria desejado voltar para trás e marchar para o Oratório; já havia dado alguns passos, mas meu guia nem se moveu. Percorremos um imenso e profundíssimo barranco e novamente nos encontramos diante da primeira porta, aos pés da vertente por onde havíamos descido. De repente o guia recuou e, com o rosto entristecido e desfeito, fez sinal para que me afastasse, dizendo:

- Observa!

Assustado, voltei os olhos para trás e vi a uma grande distância, por aquele rapidíssimo caminho, alguém que caía precipitadamente. Conforme ia se aproximando, procurava fixar-lhe o rosto; afinal reconheci nele um dos meus jovens. Seus cabelos, em parte desordenados e eriçados, em parte lançados para trás por efeito do vento; seus braços, estendidos para adiante em atitude de quem nada para escapar do naufrágio. Queria parar e não podia. Tropeçava nas pedras salientes do caminho e elas mesmas serviam para dar-lhe mais impulso na queda.

- Corramos, vamos Pará-lo e ajuda-lo - dizia eu, enquanto estendia para ele as mãos.

- Não, deixa - dizia-me o guia.

- Por que não posso Pará-lo?

- Não sabes como é terrível a vingança de Deus?

Porventura crês que és capaz de parar alguém que foge da cólera acesa do Senhor?

Entrementes, o jovem, voltando a cabeça para trás e olhando com olhos esbugalhados para ver se a ira de Deus o perseguia, lançava-se ao fundo e ia chocar-se na porta de bronze, como se em sua fuga não pudesse encontrar melhor refúgio.

- Por que - perguntava eu - aquele jovem olha para trás com tanto espanto?

- Porque a ira de Deus atravessa todas as portas do Inferno e vai atormentá-los até em meio do fogo.

De fato, ante aquele encontrão, com estrondo se abriu a porta. Por trás dela abriram-se ao mesmo tempo, com estrondo ensurdecedor, duas, dez, cem, mil portas mais, empurradas pelo jovem que era levado por um torvelinho invisível, irresistível, velocíssimo. Todas essas portas de bronze, uma defronte à outra, embora a grande distância, ficavam um instante abertas. Vi no fundo, muito distante, como que a boca de um grande forno, e enquanto o jovem se precipitava naquela voragem, elevaram-se bolas de fogo. As portas voltaram a fechar-se com a mesma rapidez com que se haviam aberto. Tirei então minha caderneta para escrever o nome e o sobrenome daquele desgraçado, mas o guia, segurando-me pelo braço, intimou-se:

- Espera e observa novamente.

Olhei e presenciei outro espetáculo. Vi que por aquela vertente se precipitavam outros três jovens das nossas casas, os quais, à maneira de três pedras, rolavam rapidissimamente um após o outro. Tinham os braços abertos e urravam de terror.

Chegaram ao fundo e foram bater na primeira porta. No mesmo instante, reconheci todos os três. A porta se abriu e, por trás delas, as outras mil; os jovens foram empurrados no compridíssimo corredor, ouviu-se um prolongado rumor infernal, que se afastava mais e mais, e desapareceram, cerrando-se as portas.

Muitos outros pouco a pouco foram caindo atrás desses. Vi cair um pobrezinho empurrado por um pérfido companheiro. Uns caíam sós, outros acompanhados; uns seguros pelo braço e outros soltos, ainda que bastante juntos uns dos outros. Todos levavam escrito na fronte o seu pecado. Eu os chamava com grande aflição, enquanto caíam. Mas os jovens não me ouviam; retumbavam as portas infernais ao abrir-se, fechavam-se depois, e seguia-se um silêncio sepulcral.

- Eis uma das causas principais de tantas condenações - exclamou meu guia - maus livros, maus companheiros e hábitos perversos.

Os laços que antes havia visto eram os que arrastavam os jovens ao precipício. Ao ver caírem tantos deles, disse com voz desolada:

- Mas então é inútil trabalharmos em nossos colégios, se tantos são os rapazes aos quais aguarda esse fim. Não haverá nenhum outro remédio para impedir a perda de tantas almas?

Respondeu o guia: - Esse é o estado atual em que se encontram, e se morressem, para cá viriam sem mais.

- Nesse caso, deixa-me anotar seus nomes para que eu possa avisa-los e pô-los no caminho do Paraíso.

- E crês que alguns deles, avisado, se corrigiriam?

Num primeiro momento, o aviso os impressionará; depois o desprezarão, dizendo: "+ um sonho!", e ficarão piores do que antes. Outros, sabendo-se descobertos, freqüentarão os Sacramentos, mas sem boa vontade e sem mérito, porque não o farão bem. Outros se confessarão, mas só por temor momentâneo do Inferno, sem arrancar de seu coração o afeto ao pecado.

- Não há, então, remédio para esses desgraçados? Dá-me um remédio que possa salva-los.

- Eles têm superiores: que lhes obedeçam! Têm um regulamento: que o observem! Têm os Sacramentos: que os freqüentem!

Nesse meio tempo, precipitou-se outro bando de jovens, e as portas ficaram abertas por uns instantes.

- Entra tu também - me disse o guia.

Retrocedi horrorizado. Estava com a idéia de que devia voltar logo ao Oratório para avisar os jovens e segura-los pra que nenhum se perdesse. Mas o guia insistiu:

- Vem, e aprenderás muitas coisas. Diz-me, antes, porém: queres ir só ou acompanhado?

Disse isso para que eu reconhecesse a insuficiência de minhas forças, e ao mesmo tempo a necessidade de sua benévola assistência. Respondi:

- Só?! A esse lugar de horrores?! Sem ser ajudado por tua bondade?! Quem é que me poderia ensinar o caminho de volta?

Mas no mesmo instante senti-me cheio de coragem, pensando comigo mesmo:

- Só pode ir para o Inferno quem já foi julgado, e eu ainda não o fui.

Em conseqüência, exclamei resoluto:

- Entremos, pois!

Adentramos aquele estreito e horrível corredor. Corríamos com a velocidade do relâmpago. Em cada uma das portas interiores brilhava com tétrica luz uma inscrição ameaçadora. Quando terminamos de percorre-lo, fomos parar num vasto e tenebroso pátio, em cujo o fundo via-se uma grossa e horrível portinha, como jamais vi igual, e nela estava escrita estas palavras: Ibunt impii in ignem aeternum [Os ímpios irão para o fogo eterno]. Todas as paredes em volta estavam cheias de inscrições. Pedi permissão para o guia para lê-las, e me respondeu:

- A vontade.

- Então examinei tudo. Num lugar, vi escrito: Dabo ignem in carnes eorum ut comburantur in sempiternum [Darei fogo a suas carnes para que queime eternamente]. Cruciabuntur die ac nocte in saecula saeculorum [Serão atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos]. Noutro lugar: Hic universitas malorum per omnia saecula saeculorum [Aqui está o conjunto dos moles pelos séculos dos séculos]. E noutro: Nullus est hic ordo, sed horror sempiternus inhabitat [Aqui não há ordem, mas habita horror eterno]. Fumus tormentorum suorum in aeternum ascendit [Eternamente estará subindo o fumo de seus tormentos]. Non est pax impiis [Não há paz para os ímpios]. Clamor et stridor dentium [Clamor e ranger de dentes].

Enquanto eu estava lendo as inscrições a volta, o guia, que havia ficado no meio do pátio, aproximou-se e me disse :

- A partir daqui ninguém mais poderá ter um companheiro que o sustente, um amigo que o conforte, um coração que o ame, um olhar compassivo, uma palavra benévola; passamos a linha. Queres ver ou experimentar?

- Só quero ver - Respondi.

- Vem, então - acrescentou o amigo, e tomou-me pela mão.

Levou-me assim adiante daquela portinha e abriu-a . comunicava com um espaço em cujo fundo havia uma grande cova fechada com uma ampla janela de um só cristal que ia desde o piso até o teto, e através do qual se podia divisar o interior. Dei um passo para trás e retrocedi até o umbral da porta, tomado por indescritível terror.

Apareceu diante de meus olhos uma espécie de imensa caverna que se perdia como que nas entranhas da montanha, cheias de fogo, não comovemos na terra, com chamas vivas, mas um fogo tal e tão ardente que tudo o que havia em torno estava torrado e embranquecido pelo excessivo calor. Paredes, tetos, chão, ferro, pedra, lenha, carvão, tudo estava branco e incandescente. Com certeza o fogo era de milhares e milhares de graus de calor; mas nada se reduzia as cinzas, nada se consumia.

Não sou capaz de descrever aquela caverna em toda a sua espantosa realidade. Praeparata est enim ab hero Thopheth, a rege praeparata, profunda et dilatata. Nutrimentum eius, ignis et ligna multa: flatus Domini sicut torrens sulphuris succendens eam (Isaías, 30, 33) [Desde muito tempo, foi Thopheth preparada por seu dono, foi preparada pelo rei, profunda e larga. Seu alimento é fogo e muita lenha; o sopro do Senhor, como uma torrente de enxofre, a mantém acesa].

Enquanto eu olhava tudo aquilo estarrecido, vejo inesperadamente cair com fúria incoercível um jovem que, lançando um grito lancinante, como o de uma pessoa, que estivesse a ponto de cair num lago de bronze derretido, se precipita no meio do fogo, torna-se incandescente como toda a caverna e fica imóvel, ressoando por uns instantes o eco de sua voz agoniada.

Cheio de horror, fechei os olhos no jovem, e pareceu-me um do oratório, um de meus filhos!

- Mas, não é este um de meus rapazes? - Perguntei ao guia - Não é fulano de tal?

- Sim, é ele - Me respondeu.

- E porque - Acrescentei - Não muda de posição? Como é que esta assim incandescente e não se consome?

- Preferiste ver, por isso agora não me fales. Olha e verás. Ademais, omnis enim igne salietur et omnis victima sale salietur (S. Marcos, 14, 15) [Será salgado com fogo e toda vítima se condimentará com sal].

Mal havia voltado os olhos, quando outro jovem, com furor desesperado e grandíssima velocidade, corre e se precipita na mesma caverna. Também era do oratório. Mal caiu, já não se moveu mais; também ele havia lançado um grito lancinante, e sua voz se havia confundido, com o ultimo eco do grito do que cairá antes.

Chegaram depois outros igualmente precipitados; seu numero aumentava cada vez mais, todos lançavam o mesmo grito e ficavam imóveis incandescentes, como os que os tinham precedido.

Observei que o primeiro teria ficado com a mão no ar e com o pé também suspenso no alto o segundo havia ficado como que dobrado para baixo. Uns tinham os pés no ar; outros, a cara contra o solo; outros, estavam como que suspensos, sustentando-se com um só pé e com uma só mão. Havia os sentados ou estendidos, apoiados de um lado em pé ou de joelhos, com as mãos entre os cabelos. Havia, por fim, um grande número de jovens como estatuas, em posições cada qual mais dolorosa.

Vieram ainda muitos mais aquela fornalha. Jovens que em parte eu conhecia e em parte eram desconhecidos. Lembrei-me então do que está escrito na Bíblia: como se cai pela primeira vez no inferno, assim se estará eternamente. Lignum, in quocumque loco ceciderit, ibi erit [onde cair a árvore, ali ficará].

Aumentava em mim o espanto, e perguntei ao guia:

- Mas esses que ocorrem com tanta velocidade, não sabem que vem ter aqui?

- Oh, sim! Sabem que vão para o fogo! Foram avisado mil vezes, mas correm voluntariamente por causa do pecado, que não detesta e não querem abandonar, porque desprezaram e rechaçaram a misericórdia de Deus que incessantemente os chamava a penitência. Por isso a justiça Divina, provocada, os empurra, os insta, os persegue e não podem parar enquanto não chegam a este lugar.

Qual não deve ser o desespero destes desgraçados sem a menor esperança de sair daqui! - Exclamei. - Queres conhecer as inquietações e os furores das almas deles? Aproxima-te um pouco mais - Respondeu o guia.

Dei alguns passos para a janela, e vi que muitos daqueles miseráveis se golpeava e feriam uns aos outros e se mordiam como cães raivosos; outros se arranhavam o rosto, se laceravam as mãos, despedaçavam as próprias carnes e as atiravam pelo ar com desprezo. De repente, o teto da caverna se tornou transparente, como de cristal, e através dele se via um pedaço do céu e as radiantes figuras de seus companheiros para sempre salvos.

Os condenados bramiam com feroz inveja, porque os justos haviam sido olhados por ele, em certo tempo, como objeto de irrisão. Peccator videbit et irascetur; dentibus suis fremet et tabescet [O pecador verá e se encolerizará a seus dentes rangerão].

- Diz-me - Perguntei a meu guia - Como é que não se ouve nenhuma voz?

- Aproxima-te ainda mais - me gritou.

Aproximei-me do cristal da janela e ouvi que uns rugiam e choravam contorcendo-se; outros blasfemavam e imprecavam os santos. Aquilo tudo era um caos de vozes e gritos autos e confusos, pelo que perguntei ao meu amigo:

Que dizem eles? Que estão gritando?

- Recordando a sorte de seus companheiros bons, vêem-se obrigados a confessar: Nos insensati! Vitam illorum aestimabamus insaniam et finem illorum sine honore [Nós, insensatos considerávamos uma loucura a vida que levavam, e seu fim sem honra]. Ecce quomodo computati sunt inter filios Dei et inter sanctos sors illorum est. Ergo erravimus a via veritatis [Eis que foram contados no numero dos filhos de Deus e sua sorte juntamente com a dos santos. Nós nos afastamos, pois, do caminho da verdade].

Por isso gritam: Lasati sumus in via iniquitatis et perditionis. Erravimus per vias difficiles, viam autem Domini ignoravimus [Corremos pelo caminho da iniqüidade e da perdição. Perdemo-nos por caminhos difíceis e não conhecemos o caminho do Senhor].

Quid nobis profuit superbia? [De que nos serviu nosso orgulho?]

Transierunt omnia illa tanquam umbra [Tudo passou como uma sombra].

Estes são os lúgubres cantos que ali ressoarão por toda a eternidade. Mas inúteis gritos, inúteis esforços, inútil pranto! Omnis dolor irruet super eos! [Toda a dor cairá sobre eles]. Aqui já não há tempo, há só eternidade.

Enquanto contemplava, cheio de horror, o estado de muitos de meus jovens, assaltou-me imprevistamente uma idéia:

- Mas como é possível que os que se encontram aqui estejam todos condenados? Estes jovens estavam ontem à tarde vivos no Oratório.

O amigo me disse: - Os que aqui vês vivem, mas estão mortos para a graça de Deus, e se morressem agora ou continuassem procedendo como no presente, se condenariam. Mas não percamos tempo; sigamos adiante.

E me afastou daquele lugar, e por um corredor que baixava a um profundo subterrâneo me conduziu a outro em cuja entrada estava escrito:

Vermis eorum non moritur, et ignis non extinguitur... Dabit Dominus omnipotens ignem et vermes in carnes eorum, ut urantur et sentiant usque in sempiternum (Judite 16, 21) [ Seu verme não morrerá e o fogo não se extinguirá... O Senhor onipotente dará fogo e vermes a suas carnes para que ardam e sofram eternamente].

Ali se contemplava o espetáculo dos atrozes remorsos dos que foram educados em nossas casas.

A recordação de todos e de cada um dos pecados não perdoados e sua justa condenação! A de terem tido mil remédios até mesmo extraordinários para se converterem ao Senhor, para serem perseverantes no bem, para ganharem o paraíso! A recordação de tantas graças prometidas, oferecidas e dadas por Maria Santíssima e não correspondidas! Terem podido se salvar com tão pouco esforço e perderem-se irremissivelmente para sempre! Lembrarem de tantos bons propósitos feitos e não compridos! Ah! Bem diz o provérbio que o inferno está cheia de boas intenções não realizadas!

Ali voltei a ver todos os jovens do oratório que havia visto pouco antes naquele forno (Alguns dos quais me estão ouvindo neste momento; outros já estiveram conosco, outros eu não conhecia). Aproximei-me e observei que todos estavam cheios de vermes e animais asquerosos que lhes roíam e consumiam o coração, os olhos, as mãos, as pernas, os braços, de maneira tão miserável que nem sei exprimir com palavras. Estavam imóveis, expostos a toda espécie de moléstias, e não podiam defender-se de modo algum.

Aproximei-me ainda mais para que me vissem esperando poder falar-lhes para que me dissessem algo, mas nenhum falava e nem me olhava. Perguntei então ao guia a causa disso, e me foi respondido que no outro mundo os condenados não tem liberdade. Cada um sofre ali todo o castigo que Deus lhe impôs, sem que possa haver mutação de espécie alguma.

- Agora é preciso - Acrescentou - que também tu vás ao meio daquela região de fogo que viste.

- Não, não! - Respondi aterrorizado - Para ir ao inferno é preciso ser antes julgado; eu ainda não o fui. Não quero, pois, ir ao inferno.

- Diz-me - observou o amigo - o que te parece melhor; ir ao inferno e livrar teus jovens, ou ficares fora e deixa-los no meio de tantos tormentos?

- Atordoados diante desta proposta, respondi:

- Oh! Quero muito a meus caros jovens, quero que todos se salvem. Mas não poderíamos fazer de tal forma que nem eles nem eu entremos ai?

- Ainda estas em tempo - me respondeu o amigo - e também eles estão, desde que faças tudo o que podes.

Meu coração se dilatou e eu disse para mim mesmo:

- Pouco me importa sofrer, desde que possa livrar dos tormentos estes meus queridos filhos.

- Vem, pois, dentro - prosseguiu o amigo. E vê a bondade e a onipotência de Deus, que amorosamente emprega mil meios de chamar a penitência teus jovens e salva-lo da morte eterna.

Tomou-me pela mão para introduzir-me na caverna, mal pus os pés no umbral encontrei inesperadamente transportado para uma magnífica sala com porta de cristal. Sobre estas, a regular distancias pendiam largos véus que cobriam outros tantos departamentos que comunicavam com a caverna.

O guia me indicou um dos véus, sobre o qual estava escrito "Sexto Mandamento", e exclamou:

- A transgressão desse Mandamento é a causa da ruína eterna de muitos jovens.

- Mas não se confessaram?

- Sim, confessaram-se, mas os pecados contra a bela virtude, confessaram-nos mal ou calaram-nos por completo. Por exemplo, um que havia cometido quatro ou cinco desses pecados, confessou somente dois ou três. Há quem tenha cometido um só na meninice e sempre teve vergonha de confessa-lo, ou o confessou mal, ou não disse tudo. Outros não tiveram arrependimento nem propósito. Mais ainda: alguns, em vez de examinar sua consciência, estudavam o modo de enganar o confessor. E o que morre com tal resolução está disposto a ser do número de condenados, e assim será para toda a eternidade. Só os que, arrependidos de todo o coração, morrem com a esperança da eterna salvação, esses serão eternamente felizes. E agora queres ver por que a misericórdia de Deus te conduziu até aqui?

Levantei o véu e vi um grupo de meninos do Oratório, todos meu conhecidos, condenados por esse pecado. Entre eles havia alguns que, na aparência, têm boa conduta.

- Pelo menos agora me deixarás escrever os nomes desses meninos para poder adverti-los em particular.

- Não é preciso - me respondeu.

- Que devo então dizer a eles?

- Prega por toda a parte contra a impureza. Basta avisa-los em geral, e não te esqueças de que, ainda que os avises em particular, prometerão, mas nem sempre com firmeza. Para conseguir isso se requer a graça de Deus, a qual, se pedida, jamais faltará a teus jovens. O bom Deus manifesta especialmente seu poder em Se compadecer e perdoar. Oração, pois, e sacrifício de tua parte. Quanto aos jovens, que ouçam tuas exortações, interroguem suas consciências, e ela lhes sugerirá o que devem fazer.

Estivemos então conversando cerca de meia hora sobre as condições necessárias para fazer uma boa confissão. Depois o guia repetiu várias vezes, erguendo a voz:

- Avertere!... Avertere!...

- Que significa essa exclamação?

- Mudar de vida, mudar de vida!...

Todo confuso por aquela revelação, baixei a cabeça e estava a ponto de me retirar, quando o guia me chamou dizendo:

- Ainda não viste tudo.

E dirigindo-se a outra parte, levantou outro véu, sobre o qual estava escrito: Qui volunt divites fieri, incident in tentationem et laqueum diaboli [Os que querem ficar ricos, caem na tentação e no laço do demônio].

Li e exclamei:

- Isso não diz respeito aos meus jovens, porque são pobres como eu; não somos ricos nem pretendemos sê-lo. Nem sequer o imaginamos.

Removido o véu, apareceram no fundo alguns meninos, todos meus conhecidos, que sofriam como os anteriores, e, mostrando-os, me disse:

- Acho que é bem a teus meninos que essa inscrição diz respeito!

- Explica-me, pois, o porquê da palavra divites [ricos].

- Por exemplo, alguns dos teus jovens têm o coração de tal maneira apegado a algum objeto material, que esse afeto os afasta do amor de Deus, e por isso faltam com caridade, a piedade, a mansidão. Não somente com o uso das riquezas se perverte o coração, mas também com o desejo delas, sobretudo se esse desejo ofende a justiça. Teus jovens são pobres, mas repara que a gula e o ócio são péssimos conselheiros. Há alguns que em seus lugares de origem se tornaram culpados de furtos significativos e, podendo, não penso em restituir. Há quem estuda a maneira de abrir com chaves falsas a dispensa; quem procura entrar no escritório do prefeito ou do ecônomo da casa; quem vai remexer as malas dos companheiros para roubar-lhes comestíveis, dinheiro ou livros para seu uso...

De uns e de outros me disse os nomes, e prosseguiu:

- Alguns se encontram aqui por se terem apropriado de objetos do vestuário, roupa branca, cobertores e colchas que pertenciam à rouparia do Oratório, para envia-los a suas casas. Alguns, por terem causado voluntariamente danos graves e não os terem reparado. Outros, por não terem devolvido coisas que lhes haviam sido emprestadas; e alguns por terem retido somas de dinheiro que lhes haviam sido confiadas para que as entregassem ao superior. E concluiu dizendo:

- Já que tais pessoas te foram indicadas, avisa-as; diz-lhes que rejeitem todos os desejos inúteis e nocivos, que sejam obedientes à lei de Deus e zelosos de sua honra; se não forem assim, a cobiça os arrastará a excessos piores que os submergirão nas dores, na morte, na perdição.

Eu não conseguia entender como, para certas coisas considerdas insignificantes pelos nossos jovens, haviam sido preparados castigos tão horríveis. Mas o amigo cortou minhas reflexões, dizendo:

- Recorda o que te foi dito diante do espetáculo dos cachos estragados da videira.

E levantou outro véu, que ocultava muitos de nossos jovens, os quais logo reconheci, pois estão presentemente no Oratório. Sobre o véu estava escrito: Radix omnium malorum [Raiz de todos os males]. E logo me perguntou:

- Sabes o que significa isso? Sabes qual é o pecado indicado por essa epígrafe?

- Parece-me que só pode ser o do orgulho.

- Não - respondeu.

- Mas sempre ouvi dizer que o orgulho é a raiz de todo o pecado.

- Sim, genericamente é; mas, em concreto, sabes qual foi o pecado que fez cair Adão e Eva no primeiro pecado, em conseqüência do qual foram expulsos do Paraíso terrestre?

- A desobediência.

- Precisamente; a desobediência é a raiz de todo o mal.

- E que devo dizer a meus jovens sobre esse ponto?

- Presta atenção: os jovens que tu vês aqui são os desobedientes, que vão preparando para si próprios tão lamentável fim. Esses tais e outros que tu crês que foram descansar, à noite descem a passear no pátio; não fazendo caso das proibições, vão a lugares perigosos, trepam nos andaimes de obras em construção, pondo em risco até a própria vida. Alguns, apesar das prescrições do regulamento, na igreja não estão como devem; em vez de rezarem, pensam em coisas completamente diversas, constroem na sua mente castelos no ar. Outros perturbam os companheiros. Há os que procuram posturas cômodas e dormem durante as sagradas funções. Outros, tu crês que vão à igreja e no entanto não vão. Ai do que descuida a oração! Quem não reza se condena! Alguns estão aqui porque, em vez de cantar os cânticos sagrados ou o ofício da Santíssima Virgem, lêem livros que tratam de tudo menos de religião, e alguns - o que é muito vergonhoso! - chegam a ler livros proibidos.

E continuou enumerando várias outras transgressões que são causa de graves desordens. Quando terminou, comovido olhei o guia na face; ele também me fitou, e eu lhe disse:

- E todas essas coisas, poderei contá-las a meus jovens?

- Sim, podes dizer a todos eles aquilo de que te recordares.

- E que conselho poderei dar-lhes para que não lhes sucedam tão graves desgraças?

Insistirás demonstrando como a obediência, mesmo nas menores coisas, a Deus, á Igreja, aos pais e aos superiores, os salvará.

- E que mais?

- Dirás a teus jovens que evitem muito o ócio, porque essa foi a causa do pecado de Davi. Diz-lhes que estejam sempre ocupados, porque assim o demônio não terá tempo de assalta-los.

Inclinei a cabeça e prometi. Não mais suportando aquele terror, disse o amigo:

- Agradeço-te a caridade que tiveste comigo, mas rogo-te que me faças sair daqui.

- Vem comigo - disse-me então - e, encorajando-me, tomou-me pela mão e sustentou-me, porque eu me sentia extenuado e sem forças. Uma vez saídos da sala, atravessamos rapidamente o horrível pátio e o largo corredor de entrada; antes de atravessar o umbral da última porta de bronze, mais uma vez voltou-se para mim e exclamou:

- Agora que viste os tormentos dos outros, é preciso que tu também experimentes um pouco o Inferno.

- Não! Não! - gritei horrorizado.

Ele insistia e eu recusava sempre.

- Não temas - dizia-me - é só para experimentar; toca nessa muralha.

Eu não tinha coragem e queria afastar-me; mas ele me segurou, dizendo-me:

- No entanto, é necessário que experimentes!

E me agarrou resolutamente pelo braço e me levou para junto da muralha, dizendo:

Toca rapidamente uma vez só, para que possas dizer que estiveste visitando as muralhas dos suplícios eternos e as tocaste; e também para que compreendas como será a última muralha, se a primeira já é tão terrível. Vês esta muralha?

Observei-a com mais atenção; era de colossal espessura. O guia prosseguiu:

- Esta é a milésima parede antes de chegar ao verdadeiro fogo do inferno. Mil muralhas o rodeiam. Cada uma delas tem mil medidas de espessura, e essa é a distância entre cada uma delas; cada medida é de mil milhas; esta muralha dista, pois, um milhão de milhas do verdadeiro fogo do Inferno e, portanto, é um pequeníssimo princípio do mesmo Inferno.

Dito isso, e vendo que eu me encolhia para não tocar a muralha, agarrou minha mão, abriu-a com força e fez com que eu a encostasse na pedra daquela milésima muralha. Naquele instante senti uma queimadura tão intensa e dolorosa que, saltando para trás e dando um fortíssimo grito, acordei.

Encontrei-me sentado na cama, e sentindo que a mão ardia, esfregava-a na outra mão para fazer cessar aquela sensação. Quando amanheceu, observei que a mão estava realmente inchada; e a impressão imaginária daquele fogo foi tão forte que pouco depois a pele da palma da mão se desprendeu e mudou.

Tende em consideração que não vos contei estas coisas com todo o seu horror tal como as vi, e com a impressão que me fizeram, para não vos assustar demais. Sabemos que o Senhor nunca falou do inferno a não ser por figuras, porque, ainda quando no-lo houvesse descrito como é, não o teríamos entendido. Nenhum mortal pode compreender essas coisas. O Senhor as conhece e pode dize-las a quem quiser.

Várias noites sucessivas tive tal perturbação, que não pude dormir por causa do medo.

Contei-vos brevemente o que vi em sonhos muito longos; deles não vos fiz senão um breve resumo. Darei mais tarde instruções sobre o respeito humano, sobre o sexto e o sétimo Mandamentos, sobre o orgulho. Não farei mais do que explicar esses sonhos; porque em tudo estão conformes com a Sagrada Escritura; ainda mais, não são senão um comentário do que se lê sobre o tema na mesma Escritura.

Nestas noites, já vos contei algumas coisas, mas quando puder vir falar-vos contar-vos-ei as restantes, dando- vos as respectivas explicações.