Thursday 9 December 2010

JOÃO PAULO II FLAGELAVA-SE EM SEGREDO

Slawomir Oder

João Paulo II. O Papa que se flagelava em segredo

O sacerdote polaco tornou-se advogado de defesa: passou cinco anos a investigar a vida de Karol Wojtyla para apresentar provas da sua santidade

João Paulo II flagelava-se em segredo com um cinto das calças que guardava no roupeiro, dormia despido no chão do quarto mas desarrumava a cama para que no dia seguinte ninguém desse por isso e, em 1989, escreveu uma carta a pedir a demissão das funções caso a doença o incapacitasse.

Estes detalhes da vida de Karol Wojtyla eram até agora desconhecidos. Mas foram descobertos, e revelados, por Slawomir Oder, o sacerdote escolhido para postular a causa da beatificação de João Paulo II. O padre polaco passou cinco anos a recolher provas e testemunhas: ouviu 114 pessoas - entre as quais se incluem três não católicos e um judeu -, e através desses testemunhos e de alguns documentos secretos conseguiu reconstruir uma imagem inédita do Papa.

Slawomir Oder acredita que beneficiou do "factor pós-morte". "Se tivesse investigado enquanto João Paulo II estava vivo não teria descoberto tanto. Algumas testemunhas preferem manter silêncio enquanto a pessoa em causa está viva. Só depois se sentem livres para contar", argumenta.

A carta de renúncia tinha sido mantida em segredo pelo Vaticano. O hábito de usar o cinto como chibata, no Vaticano como na Polónia, era segredo só para alguns: chegou aos ouvidos de membros da comitiva mais próximos. O hábito de dormir nu no chão do quarto ou os jejuns rigorosos não escaparam aos olhares da governanta de Cracóvia, nos tempos em que ainda era arcebispo. Para o sacerdote que se transformou numa espécie de advogado de defesa de João Paulo II, falar de práticas masoquistas é despropositado. "Não o fazia para infligir castigos ao seu corpo. É simplesmente uma prática cristã, da tradição dos carmelitas a que ele permaneceu fiel toda a vida."

Oder conta outros pormenores da vida do Papa que vão além das práticas religiosas. João Paulo II era obcecado com os discursos - antes de ir ao Japão transcreveu as palavras com a fonética japonesa, antes de ir ao Guam escutou durante horas gravações de saudações em chamarro e antes de ir à Papua-Nova Guiné fez questão de aprender pidgin para saudar o povo indígena. Ficava envergonhado por usar bengala (defendia-se dizendo que era instrumento de pastor e não de velho). E tinha uma enorme lucidez sobre o seu estado de saúde: "Julga que não vejo na televisão como estou?", reagiu um dia perante um colaborador.

Encontros imediatos No dia do funeral, milhares de fiéis ergueram cartazes a pedir "Santo, já". Mas para a Igreja Católica a fama de santidade não é suficiente para a beatificação. "Não basta que ninguém duvide que aquele homem é santo. É preciso cruzar fontes e detalhar o que fez na vida antes e depois de ser Papa", explica Slawomir Oder. É ainda necessária a confirmação de um milagre, considerado pela Igreja Católica "o selo de Deus". Oder descobriu mais: 1500 milagres, contados em 1500 cartas. Um deles - a cura inexplicável, em 2005, de uma madre francesa que sofria de Parkinson - está a ser analisado e é a peça-chave que falta para a beatificação de João Paulo II.

por Sílvia Caneco, Publicado em 09 de Dezembro de 2010

I ONLINE 9-12-2010



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